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Gustavo Almeida

OPINIÃO | O debate sobre a compensação a Themístocles e o desrespeito ao eleitor

Se articular pensando lá na frente é normal na política, mas a forma desavergonhada como alguns fazem em relação à tal compensação para Themístocles é um acinte ao povo.

Themístocles Filho (Foto: Regis Falcão/Alepi)

A disputa de poder e as discussões sobre ocupação de espaços na política são comuns e fazem parte do dia a dia de quem milita na vida pública. Quanto maior é a proximidade de uma eleição, mais intensas são as articulações e as negociatas para definição de posições no tabuleiro político. E esse tipo de debate, naturalmente, acaba ganhando espaço - muitas vezes exagerado - nos veículos de imprensa e nas rodas de conversa.

Contudo, algumas discussões não deveriam ser encaradas com tanta normalidade como se vê no Piauí. Em alguns casos, o que se nota é que uma parcela da classe política se acha dona do estado e das instituições, ao ponto de colocar na mesa de negociações alternativas que ignoraram totalmente a existência do eleitor e do processo eleitoral.

A temática da vez no debate político do Piauí é qual a compensação será dada ao vice-governador Themístocles Filho (MDB), renegado da chapa majoritária do governador Rafael Fonteles (PT) para as eleições de 2026. Entranhado no poder político no Piauí há mais de 40 anos, Themístocles não queria ficar de fora da chapa, mas, uma vez rejeitado, entende que precisa ser recompensado com alguma estrutura robusta.

Seus aliados avaliam que seria um desrespeito deixar sem mandato um homem que possui mandato há quatro décadas. Diante do impasse, fala-se que Themístocles deverá voltar a ser deputado estadual, sacrificando a reeleição do filho Felipe Sampaio, que hoje ocupa esse cargo. Mas não é só isso: no plano para compensar o cacique do MDB, muitos aliados já falam no seu retorno à presidência da Assembleia Legislativa, uma vez que ser só um simples deputado seria, na visão destes, rebaixá-lo.

Themístocles já foi presidente da Assembleia por 18 anos seguidos, marca que pode até ser motivo de orgulho para a trajetória política dele, mas que, numa democracia onde a alternância de poder é essencial, não é nenhuma razão para um estado se orgulhar. 

Quando a classe política faz planos para colocar Themístocles de volta na cadeira de presidente da Assembleia – e permite que o tema se torne público sem nenhuma cerimônia – ela atropela completamente a existência do eleitor. Além disso, passa a ideia de que o controle de uma casa legislativa será devolvido para as mãos do seu verdadeiro dono. 

Projetar cenários e mexer as peças do xadrez vislumbrando o futuro é normal na política e em qualquer área de atuação, mas a forma desavergonhada como alguns fazem em relação à tal compensação para Themístocles é um acinte aos cidadãos. É preciso lembrar que em 2026 vai existir uma eleição e, embora haja favoritismos evidentes, não se pode, ao menos publicamente, tratar de planos como se nem eleição fosse existir. 

Numa entrevista na quarta-feira (27), o atual presidente da Assembleia Legislativa, deputado Severo Eulálio (MDB), se posicionou com lucidez ao ser perguntado sobre essa discussão. Diferente de alguns dos seus colegas de partido, ele classificou como prematuro falar de presidência de Assembleia para A ou B e alertou que antes de qualquer tratativa nesse sentido é preciso lembrar que os políticos serão submetidos ao sufrágio do voto. “Para falar de eleição da Assembleia todos têm que passar pelo crivo popular em 2026. Então, acho totalmente prematuro tratar desse tema.”, disse Severo.

A imprensa, é importante destacar, também deveria ser mais crítica ao repercutir esse tipo de tratativa política.

Cada partido tem o direito de defender seus espaços e buscar ampliar sua influência. Acordos de bastidores são típicos do exercício da política e o MDB não está errado quando atua para manter seu protagonismo. Contudo, é preciso ter o mínimo de sensatez com o que se deixa virar debate público, com tamanha naturalidade.

Antes de qualquer coisa, é preciso respeitar a soberania do voto e entender que as instituições não devem ser tratadas tão desavergonhadamente como um produto de troca numa feira livre.

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